Empresas brasileiras já precisam avaliar riscos psicossociais no trabalho. Desde maio, uma nova norma define que empregadores devem identificar e gerenciar fatores como estresse, assédio e carga mental excessiva.
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A mudança chega em momento em que dados do Ministério da Previdência Social mostram que o Brasil pode fechar 2025 com mais de 530 mil afastamentos por transtornos mentais, o primeiro ano a ultrapassar meio milhão de casos.
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Sergio Lazarini, Gerente Médico do Trabalho da Volvo, defende que empresas devem começar por estabelecer um ambiente mentalmente saudável. “O primeiro ponto é criar uma cultura de respeito, de tolerância zero a assédio e de naturalizar falar sobre saúde mental. Na Volvo é assim há muito tempo”, afirma. Continue e confira a reportagem completa.
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A Volvo tem entre seus valores uma filosofia de cuidado integral com a saúde mental dos funcionários.
“A Volvo é muito forte com essa cultura do respeito, da civilidade no tratamento com as pessoas, na intolerância com relação ao assédio. Isso já cria uma base muito importante”
| SERGIO LAZARINI, GERENTE MÉDICO DO TRABALHO DA VOLVO
A empresa tem um arco amplo de ações que vão da prevenção à recuperação.
A avaliação dos riscos psicossociais faz parte da rotina corporativa. “São aqueles fatores próprios da organização que têm a capacidade de interferir na nossa saúde, em nosso bem-estar, principalmente na saúde mental”, define Lazarini.
Funcionários respondem um questionário anônimo. “Não nos interessa a pessoa, mas um retrato. Se algo não está dentro do que é o esperado, a gente desenvolve trabalho com grupos focais para entender melhor o que está acontecendo e como aprimorar”, explica.
A Volvo conta com a Associação Volvo, o clube dos funcionários e de suas famílias. Oferece espaço para atividade física, cultural, de lazer e interação social. “Tudo isso facilita muito o equilíbrio entre a nossa vida pessoal e a de trabalho”, afirma Lazarini.
A empresa oferece também a linha telefônica Volvo Vida e Bem-Estar. O número é 3798 5055. Funcionários e familiares podem ligar em momentos de angústia. “Não é terapia. É uma orientação especializada, o acolhimento por um profissional qualificado”, esclarece o médico. A assistente social da empresa tem qualificação como socorrista em saúde mental. “Faz o acolhimento e orientação”, acrescenta Lazarini.
As rodas de conversa sobre saúde mental acontecem em alinhamento com as áreas. A empresa recomenda o Wellbeing Index, um aquecimento nas reuniões. “Como é que estou hoje, preciso de ajuda? O gestor tem oportunidade também de entender como está a sua equipe”, explica.
Na recuperação, casos mais complicados têm acompanhamento do Health Guardian, grupo dentro do plano de saúde da empresa, o VOAM, Volvo Odontologia e Assistência Médica.
“São profissionais que fazem uma curadoria para apurar se a pessoa está recebendo a atenção que precisa, se a assistência é a esperada”, diz o médico.
O benefício farmácia ajuda no acesso a medicamentos. “O custeio de 70% facilita muito o acesso a essa medicação”, destaca.

TRÊS PILARES FUNDAMENTAIS
Lazarini chama de “trindade da saúde” os três pilares essenciais para uma boa saúde mental. “Exercício físico, alimentação adequada e sono de qualidade. Tem base científica”, garante.
O médico desfaz equívocos. “Quando eu falo exercício não necessariamente é academia, alta performance. É manter-se ativo fisicamente. É fundamental porque não existe separação entre saúde mental e saúde física. As duas esferas interferem uma na outra, afinal somos uma pessoa só”, explica.
Sobre alimentação, Lazarini também afasta radicalismos. “É um equilíbrio”, esclarece.
“Por último, o sono. Se não descanso quando durmo, preciso investigar. Porque é durante o sono que as reparações, a manutenção do nosso corpo acontece no nível celular e bioquímico”
| SERGIO LAZARINI, GERENTE MÉDICO DO TRABALHO DA VOLVO
AUTOCUIDADO
Além dos três pilares, Lazarini recomenda outras práticas. O mindfulness ou meditação aparecem como aliados. “Não tem aqui nenhuma conotação de religião. É uma prática que desenvolve um foco para a sua atenção. Você aprende a não se deixar ser capturado pelos pensamentos intrusivos”, explica.
O autocuidado entra como prática essencial: se dedicar a fazer algo que traz prazer.
“É uma coisa bem egoísta mesmo. Não é para os outros, é para mim. Tem gente que dançar é uma coisa que dá muito prazer. Pode ser jogo eletrônico, jardinagem. Cada pessoa tem a sua preferência”
| SERGIO LAZARINI, GERENTE MÉDICO DO TRABALHO DA VOLVO
Ele sugere uma gestão visual do autocuidado. “Como se fosse uma planilha, você coloca os meses do ano e os dias de cada mês. Ao final do dia, se você dedicou 15 minutos, 20 minutos para o seu autocuidado, preenche aquele quadradinho. Não é raro quem faz isso perceber que passou semanas, às vezes meses, sem dedicar nenhum tempo para si mesmo”, alerta.
O PANORAMA NO BRASIL
O Brasil vive uma crise de saúde mental no trabalho. Os afastamentos por transtornos mentais cresceram mais de 130% entre 2022 e 2024, passando de 201 mil para 472 mil casos, segundo dados do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A maior parte dos afastamentos em 2024 ocorreu por ansiedade, seguida por episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente. Pesquisa da VR revelou aumento de 28% no número médio de afastamentos por saúde mental no primeiro trimestre de 2025, em comparação com a média de 2024.
Outra pesquisa, da Creditas Benefícios, em 2024, revelou que 86% dos trabalhadores brasileiros já enfrentaram questões de saúde mental relacionados ao trabalho. Os principais foram estresse, ansiedade e insônia.
O cenário brasileiro reflete uma crise global. A OMS estima que 12 bilhões de dias de trabalho se perdem anualmente por depressão e ansiedade, o que custa à economia mundial quase US$ 1 trilhão. No mundo, 15% dos adultos em idade ativa convivem com algum transtorno mental.
RISCOS DA HIPERCONEXÃO
Lazarini identifica uma das raízes contemporâneas do problema: a hiperconexão. “Nosso modo de viver é cada vez mais hiperconectado. Pode ser no trabalho, mas também nas nossas atividades pessoais, como o tempo em redes sociais “, explica.
Os algoritmos agravam o cenário. “São criados para nos reter naquela atividade. Então a gente precisa ter uma intencionalidade no uso dessas ferramentas, estabelecer limite de tempo e de dedicação”, diz Lazarini.
CONTÍNUO SAÚDE E DOENÇA
O Gerente Médico de Trabalho da Volvo alerta que todos podem enfrentar questões relacionadas à saúde mental. “Não necessariamente uma doença, porque quando a gente fala de saúde mental, não estamos só falando de saúde e doença. Eu acho muito mais adequado pensar num contínuo entre saúde e doença e a gente se movendo dinamicamente nesse contínuo”, reflete.
A terapia aparece como ferramenta para diversos fins. “Desenvolver a autoestima, aprender a entender e reconhecer as próprias emoções, como lidar com elas. Tudo isso também pode ser desenvolvido e aprimorado através de terapia. Então as ações, as alternativas, o modo de lidar é muito complexo e distinto. Cada um pode e deve encontrar o seu caminho”, conclui o médico.
_ ESPECIAL SAÚDE MENTAL
Publicamos uma série de seis reportagens sobre saúde mental.
1 CRIANÇAS A importância da saúde mental na infância. Clique aqui e confira
2 ADOLESCENTES Saúde mental em tempos de redes sociais. Clique aqui e confira
3 HOMENS Desconstruindo a masculinidade sem falha. Clique aqui e confira
4 MULHERES O equilíbrio entre múltiplas tarefas. Clique aqui e confira
5 APÓS OS 60 Como envelhecer com qualidade de vida. Clique aqui e confira
6 TRABALHO Saúde mental no ambiente corporativo.
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